As árvores.

arvores

   Comecei num passeio em um parque a contemplar várias árvores, assim como o verde em geral. A natureza sempre me fascinou e sentir a brisa no vento no rosto e olhar para ela sempre foi uma maneira de me equilibrar e organizar as idéias. Nesta circunstância, lembrei-me de uma passagem da minha vida.

       Em certo momento da minha adolescência, abandonei as práticas religiosas que eu seguia, mais por uma influência familiar do que por uma opção minha. Algo que vejo como natural, pois somos influenciados pelo nosso ambiente e vice-versa.

      Aquela idéia de um Deus acima dos homens, não causava uma ressonância em mim. Então decidi que aquela crença naquele Deus que me era mostrado não me dizia nada e resolvi me tornar ateu. Situação que perdurou durante alguns anos. Esta decisão me trouxe um alívio, pois estava sendo autêntico e verdadeiro para comigo mesmo. Meus familiares, com toda boa intenção (segundo o ponto de vista deles), discordaram e fizeram suas colocações de acordo com os referenciais que tinham, que me pareciam muito impregnados de medo e culpa.

     Acho que toda religião, filosofia, escola de pensamento seja válida, pois o que importa, na verdade é que sejamos felizes. E se uma pessoa é feliz seguindo determinada religião b ou c, que assim o faça. Como também acho que os ateus, na sua busca para provar que Deus é uma invenção do homem para lidar com o sofrimento, também podem lidar muito bem com isso. No fundo, acho que todos estamos certos. Pois cada um tem a sua visão, e o direito de seguir ou não qualquer tipo de ideologia ou crença.

    O problema é quando os crentes ou descrentes querem que os demais pensem ou acreditem nas suas ideologias e valores. Disso surge a intolerância, o que gera os mais diversos conflitos.

    No alívio que senti por não seguir mais a religião dos meus pais, ao mesmo tempo veio um sentimento de vazio.  Mesmo não compartilhando mais desta crença, eu sentia dentro de mim que um Universo sem Deus era algo improvável. E nisto continuei minha busca por Deus.

  Numa bela tarde, ao caminhar em um parque, comecei a observar as árvores. Peguei uma folha do chão e comecei a admirar as formas, os desenhos perfeitos e as imperfeições e notava um padrão admirável. Contemplava as mais diferentes cores, olhei para flores, senti o vento e ele me parecia dizer algo além das palavras, que meu eu interno sentia, mas eu não sabia expressar, verbalizar.

    Então, comecei a observar cada vez mais e mais a natureza, as crianças, os animais. Era como se eu fosse novamente uma criança a redescobrir uma vida nova dentro da vida diária. Notava que percebia detalhes que antes nunca havia reparado. E o fato de eu observar, de parar, de dirigir minha atenção, estava abrindo uma nova perspectiva para mim.

   Uma sensação de profunda conexão com tudo ao meu redor foi me tomando, lágrimas vieram aos meus olhos, uma emoção de um sentimento de volta para casa se fez presente. E eu me perguntava: tem que ter uma inteligência que cria com perfeição essas folhas, essas árvores que nos fornecem abrigo, oxigênio, frutos, beleza, poesia, sombra. E eu senti Deus na natureza, em tudo ao meu redor, e principalmente dentro de mim.

    Então redescobri Deus não acima dos homens, mas em todos, nos animais, nas plantas, no sorriso, no choro, na alegria, na tristeza, no brilho do olhar e principalmente no sentimento de amor. Acho que todos nós somos a expressão da vida, que é extremamente rica em sua diversidade, assim como as diversas cores das flores, das matas, das raças, das crenças ou descrenças. Vi que somos partes que formamos este Todo. Somos seres dualistas, mas que somos conectados a tudo por esta essência divina. E sentir e perceber tudo isso me trouxe paz, sem medos, sem culpas.

    E na alegria deste encontro, descobri que não precisava mais procurá-lo. Ele sempre esteve dentro de mim.

                                    Sérgio Pinheiro Paffer.

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