Intolerância dos pais

pai-e-filho.jpg

 

Minha amiga e parceira de causa na divulgação da Medicina Integrativa, Ana Maria Saad publicou um excelente post  no seu blog sobre depressão na adolescência. Da leitura deste post veio a inspiração pra discutir este tema tão presente nos dias de hoje: o desafio de criar os filhos e a intolerância dos pais. Como há conceitos que precisam ser revistos por todos, quer sejamos pais ou não, pois podemos ser tios, amigos, colegas, enfim, por incrível que pareça, podemos ser seres humanos que podem fazer a diferença na vida de outro que se encontre doente ou confuso. Nós podemos fazer a diferença para melhor.

    E assim tomando esta decisão, a de nos melhorar, ajudamos a melhorar toda a sociedade. Deixo vocês com um trecho do post da Ana para ilustrar de onde me inspirei. Uma boa leitura e abra sua mente, mas principalmente seu coração.

“Ano passado conheci uma garota de 15 anos que tem depressão e que daria entrevista para um canal de televisão sobre o tema. Ela ficou muito empolgada com a chance de dividir sua história e assim ajudar a aliviar a dor de tantos outros adolescentes que sofrem de transtorno de humor.

  Para minha surpresa ela não deu a entrevista e a produtora do programa me contou que a mãe dela havia deixado, mas o pai a proibira, ameaçando tomar medidas mais severas se alguém insistisse na idéia, mesmo a menina querendo tanto, mesmo isso fazendo bem para ela, que poderia finalmente ter o alívio de tirar essa máscara, que nós que sofremos de transtornos mentais usamos por um bom tempo, a qual fica cutucando nossa carne viva, nos lembrando que essa dor extra é o preço que se paga ao querer a todo custo se encaixar na fôrma social, posando de “normal” e fingindo que não se está doente.

  Talvez se a garota tivesse sido convidada para uma aparição “gloriosa” na TV seu pai deixaria, até mesmo a acompanharia! Mas falar das misérias humanas, da dor íntima não é nada bem visto nessa nossa sociedade recheada de valores superficiais.

Outra adolescente que conheci pela Pensamentos Filmados e sofre de Depressão ou algum outro transtorno de humor está sem tratamento médico e terapêutico porque os pais não acreditam nela! E ela já tentou suicídio várias vezes! E se conseguisse provavelmente ainda falariam que “ela era ingrata, que tinha tudo, que se matou do nada, que estava andando com más companhias”, e todas outras explicações cliches que denunciam a “santa” ignorância!

Gente, você não acreditar em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa tudo bem, mas não acreditar que Aids, diabetes, câncer e doenças mentais, como os transtornos de humor, existem é burrice pura, que muitas vezes está a encobrir o medo de ter que lidar com uma realidade desconhecida ou preguiça mesmo, a qual prefere ficar escondida na ignorância atrevida.

E eu pergunto: os pais negarem atendimento médico para o filho adolescente é crime? Deveria ser, aliás antes de qualquer adulto inventar de ter filhos ele deveria passar por um batalhão de testes, pois a maioria dos que são pais não o são para ajudar seus filhos a desenvolverem seu potencial e desabrocharem como seres humanos, eles tem filhos para tapar o buraco das suas frustrações, para tentar encher seu vazio, e aí é óbvio, quem sofre é essa meninada que fica perambulando doente por aí sem ter atendimento médico e terapêutico!

Por isso gente pelo amor! Tem muita moçada sofrendo de doença por aí, é preciso se ligar! Leiam o artigo que saiu no Estadão! Se você é pai, mãe, tio, tia, professor, se você é humano, ajude a divulgar esse conhecimento acerca das doenças mentais!”

Excelente texto Ana. Concordo com tudo o que você falou. Os pais, em sua maioria, têm filhos pra tentar se auto-afirmar de alguma forma. E não trabalham a si mesmos para se conhecerem. Ora, se eu não me conheço, se a principal relação que tenho na vida (que é a comigo mesmo) eu não cuido,  termino não trabalhando minhas emoções. Vivo uma vida maquiada, onde por fora, tudo parece bonitinho, estou no esquema, faço o que esperam de mim. Mas por dentro estou um lixo, dilacerando minha alma, da qual só ouvi falar quando dizem “cuidado com alma penada”. Pois é, meus amigos, respeitando os ateus e pessoas de pensamentos contrários, acredito que dentro de nós habita uma parcela divina a qual chamo alma ou espírito.

  E o preço de não entrar em contato com ela é muito alto. Vivemos numa sociedade superficial, onde se busca ter uma boa aparência e muitos vivem de aparências. E os pais, que só por terem a capacidade de se reproduzir (coisa que a maioria das espécies vivas têm, não precisa ser humano pra isso), para seguir o velho modelo, um belo dia decidem: “vou casar e constituir uma família”. Mas como constituir um ente maior, sim porque um casamento é uma outra relação e a condição de pai e mãe idem e mais importante ainda, pois a pessoa está gerando outro ser vivo. Que dependerá por muito tempo até ter sua autonomia material e emocional pra seguir com a própria vida.

  E como pessoas que sequer se conhecem, trazendo os resquícios das relações doentias que se vê em muitas famílias, propõem-se a gerar filhos? Então surgem algumas perguntas. Ser um bom pai ou mãe é: dar assistência material, cuidar da formação intelectual ,religiosa (para os religiosos) e dar os meios materiais pra que os filhos sigam uma profissão socialmente aceita da qual possam sobreviver e depois deitar a cabeça no travesseiro tranquilamente e dizer: “pronto .Fiz o meu papel. botei filhos no mundo ,criei, dei educação, valores, eles estão “formados”, “numa profissão que vai lhes dar um retorno financeiro, sua sobrevivência”, “status”  uma “posição social”. Agora é com eles. Será?

   E o que dizer da educação afetiva, do acolhimento, do amparo emocional, da aceitação dos filhos tal como eles são, indivíduos (significa que eles têm uma individualidade, eles não são sua xerox, são seres únicos) que têm suas potencialidades, vocações, que podem não coincidir com o socialmente estabelecido como o”bom caminho”, uma inclinação profissional para a qual a sociedade não dê “status”. Quantas vezes você pai ou mãe que me lê agora, parou para pensar que seus filhos são seres únicos, que VOCÊ gerou, que não estão aqui pra satisfazer os seus caprichos, preencher os seus vazios, realizar os sonhos SEUS, pois eles têm seus próprios sonhos? Você já falou muito pra seu filho(a), mas quantas vezes parou, olhou nos fundos dos seus olhos e parou para escutá-lo(a)?

   Quantas vezes os pais querem passar ,ou melhor dizendo, enfiar goela abaixo seus valores, suas crenças para os filhos, ignorando que os filhos podem e devem ter seus próprios valores que necessariamente não são os seus e isso não significa que eles deixaram de amar os pais, simplesmente são diferentes. E ser diferente não significa ser melhor ou pior. Nós é que sabemos tudo, ou pensamos que sabemos e ignoramos que cada um tem sua própria verdade.

O exemplo do pai que impediu a filha de dar entrevista sobre sua doença ilustra isso. Esta atitude não foi uma atitude de pensar no bem da sua filha, ou de resguardá-la de uma suposta exposição. Porque ninguém tem culpa de adoecer e nem deve ter vergonha disso. Porque a sociedade não “aceita” a depressão, bipolaridade, esquizofrenia? Essa atitude deste pai não é demonstração de amor, é uma demonstração de ORGULHO. Porque para a maioria, admitir que tem um filho doente mental ,gay, artista, ou que fuja ao padrão estabelecido daquele grupo familiar, e da “sociedade” é motivo de vergonha. Estas pessoas que se propõem a serem pais é que deveriam ter vergonha. Vergonha da pobreza dos seus espíritos, da sua falta de informação, profunda ignorância e principalmente falta de afeto e de amor. Pois quem ama aceita. Quem ama não tenta mudar o outro pra que ele vire o que lhe convém. Quem ama honra a essência do outro.

   A realidade é que muito poucas pessoas têm discernimento emocional, afetivo e evolução espiritual para serem pais. O triste é que esses pais se dessem uma chance, procurando conhecer seus filhos, de verdade, teriam tanto a aprender  com eles. Seus filhos em vez de desenvolverem distúrbios psíquicos graves em virtude dessas cobranças e relações doentias poderiam ter uma troca maravilhosa e desenvolver gratidão, aprendizado, boas lembranças. Por isso as pessoas estranham quando em determinados casos, vemos filhos, que, após passarem maus pedaços com suas famílias, terminam rompendo com elas, por uma decisão de saúde. E ainda há os hipócritas de plantão a dizer: “mas fulano é um filho tão ingrato, recebeu tudo do bom e do melhor, os melhores colégios, as melhores roupas e age assim com seus “pobres” pais”. Toda história tem seus dois lados. Os pais muitas vezes acham que dão tudo para os filhos e esquecem do principal legado que podem lhes deixar: AFETO, RESPEITO POR SUA INDIVIDUALIDADE, AMIZADE, LIMITES, ACOLHIMENTO, AMPARO, AMOR.

   Mas não quero com isso dizer que os pais são responsáveis por tudo o que

acontecer de ruim na vida dos filhos. Esta é uma postura vitimista e cômoda. E não acho que seja por aí. O que estou dizendo é como a Ana falou, há pessoas que não deveriam gerar filhos, pois não têm maturidade emocional e espiritual para tanto. Por mais que o passado nosso seja doloroso, que tenhamos sido desrespeitados não podemos mesmo mudar o que passou. Mas podemos ESCOLHER um novo presente. Em que vamos nos dar tudo aquilo que não nos deram. Pois eu tenho a convicção que aquilo que a vida não nos deu é porque é para nós conquistarmos. Não vejo como castigo ,carma, vejo tudo o que acontece conosco como APRENDIZADO. E isto tem causado uma revolução na minha vida. As marcas podem ficar, mas o peso que elas terão vai depender muito do foco, da atenção que dermos a elas. Sempre temos escolhas. E se nos abrirmos pra aprender, o Universo nos trará as ferramentas necessárias para nosso aprendizado. Vamos investir no amor. Por nós mesmos, por nossos filhos. E vamos procurar trocar o orgulho pela aceitação, acolhimento da essência do outro e tolerância. Muita paz pra todos.

                                     Sérgio Pinheiro Paffer.

                                ©Todos os direitos reservados. 

                                    Imagem: reprodução.

 

 

 

 

 

 

 

   

Anúncios

Preconceito

apontar   

   Penso que uma das grandes chagas da humanidade seja o preconceito. A própria palavra em si já define a situação. Pré significa antecipado, precipitado. Conceito é uma definição sobre qualquer assunto, um juízo de valor, uma qualificação dada a um fato, assunto, pessoa ou questão que envolve os chamados seres humanos.

  Antigamente as pessoas portadoras da hanseníase, a outrora chamada lepra, em virtude da falta de tratamentos efetivos e um possível contágio eram segregadas do convívio social. Eram levadas para áreas afastadas, muitas vezes até para morrerem ao léu, sendo abandonadas. O medo que envolvia os não leprosos e o preconceito contra os doentes fazia com que tomassem nojo diante dos mesmos.

    Graças a Deus e aos avanços da Medicina hoje em dia, a hanseníase é uma doença totalmente curável, desde que o paciente siga o tratamento até o final. Mas uma herança ficou e que se estende para tudo que não se enquadra na esfera do “normal”, do socialmente “aceitável” : o preconceito.

    Ninguém que tenha hipertensão, diabetes, enxaqueca, etc sofre qualquer tipo de discriminação por parte da sociedade. Ao contrário, há pessoas que, de tão enfermas da alma, inconscientes dos seus recursos de cura interior, dizem até com a maior intimidade: “a minha enxaqueca hoje está muito forte”, “não vou sair porque minha bursite está me atacando”. Não sabem elas que ao fazer isto estão programando-se para perpetuar o quadro do que padecem, haja vista o poder da palavra e da intenção.

    As pessoas que sofrem de doenças mentais como depressão, transtorno bipolar do humor, esquizofrenia,T.O.C., pânico já não gozam de tal privilégio. Sofrem um preconceito ao que comparo como sendo a “lepra moderna”. Normalmente começam a enfrentar a incompreensão dentro da própria família. Muitas vezes até bem intencionadas agem de uma forma na tentativa de “ajudar” e terminam prejudicando o doente.

    Em vez de buscarem informação de qualidade sobre o que é uma doença mental, sobre o fato de que não é: “frescura, encosto, preguiça, falta do que fazer, falta de força de vontade”, entre outros clichês do gênero, tudo isto causado pela mais profunda IGNORÂNCIA, ficam rotulando o doente. Ninguém adoece porque quer. Adoecer é uma possibilidade pelo simples fato de estar num corpo físico e todos podemos adoecer do corpo, da mente e do espírito.

    Há um excelente site que trata do tema, cuja proprietária, a atriz, roteirista e diretora de cinema, Ana Maria Saad, o http://www.pensamentosfilmados.com.br,  disponibiliza gratuitamente informações de qualidade sobre praticamente todos os transtornos do humor e alternativas de tratamento, desde a Medicina alopata até a moderna Medicina Integrativa.

    O preconceito só tem uma função: ele serve para desagregar as pessoas, a despertar e ativar o lado sombrio do ser humano e isso serve às forças negativas que estão no poder (a mídia em geral, as religiões, o Estado). Buscam através dele, DIVIDIR o ser humano, segregá-lo, colocar nele a ilusão que deve seguir um determinado padrão de pensamento, conduta , a fim de ser um boneco manipulável.

    A tolerância, o não julgamento me parecem ser virtudes necessárias de desenvolvermos, de exercermos, pois o mundo em que vivemos já se encontra muito dividido.

    As pessoas que têm uma doença mental ou qualquer outro tipo de doença não precisam da pena, do ódio, do medo e muito menos do preconceito de ninguém. Infelizmente, segundo dados da O.M.S. (Organização Mundial de Saúde), brevemente estaremos vivenciando uma epidemia de depressão. A doença é altamente democrática, atingindo pessoas de todas as classes sociais, raças e escolaridade.

    Eu, por exemplo, neste momento apresento um quadro de depressão. Sinto-me muito bem e , apesar de conviver com esta doença, ela é apenas a expressão de uma parte de mim. Todo ser humano, até  os ditos “saudáveis” têm uma parte  doentia e outra saudável. A depressão está longe de ser aquilo que me define, pois o que me define é aquilo em que eu coloco meu foco. E eu sou Mestre de Reiki, massoterapeuta, professor de automassagem chinesa, bacharel em Direito, cantor, compositor, arranho um violão, cidadão consciente, um ser humano com defeitos e virtudes, como qualquer outro.

    O conceito de saúde e de doença são extremante relativos vistos a partir do paradigma holístico,  e até por algumas correntes da Psicologia. O que é ser saudável? É não ter nenhum tipo de doença, quer seja física ou emocional? O que é ser doente? É não ter nenhum sintoma físico, psíquico, é pensar igual a todo mundo? Todo mundo é ou tem de pensar igual? Não seremos nós seres únicos e que precisamos honrar e abraçar essa individualidade a fim de sermos felizes e realizar nossas metas?

    Será que não há também doenças da alma, como o egoísmo, a mesquinhez, a hipocrisia, o orgulho, o preconceito (olhe ele aqui de novo, lembram?) a falta de opinião crítica, a falta de amor? Eu acho que sim. Sendo assim, todos, independentemente de terem sido diagnosticados ou apresentarem qualquer distúrbio psíquico, não têm um lado doente e outro saudável?

    A depressão não é aquilo que me define, assim como meus medos, ou minha coragem, a minha visão ou a falta dela, afinal há tanto a aprender ainda…

    A pessoa é que se define. Somos seres em eterna definição. Se focarmos no nosso lado doentio, só vamos ver e manifestar doença. Se focarmos no nosso lado saudável iremos ver e manifestar saúde, Luz. E todas as práticas terapêuticas visam resgatar esse lado saudável, entrar em conexão com ele, como as Terapias Integrativas e a Medicina Integrativa que vêem o ser humano não como um conjunto de sintomas que precisam ser suprimidos, porque “o sofrimento não é bom, nem mau, ele é funcional”(Luiz Gasparetto).

    A doença pode ser uma oportunidade, um chamado para que a pessoa pare. E, através das terapias, procurar se conhecer, fazer um mergulho interior, adquirindo assim o maior bem desta vida:o autoconhecimento. Mas, para isso , é preciso  querer, procurar e investir. Ninguém pode ajudar alguém que não quer ser ajudado. Se a pessoa buscar bons profissionais e se dedicar aos tratamentos é possível ser feliz e produtivo mesmo tendo depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar e demais doenças.

    Porque ser feliz é uma escolha. E nós sempre temos escolhas. O poder de mudar está dentro de nós. A dor não é o “mal”, o sintoma não é o “inimigo”. Eles são sinais indicativos que algo não está bem dentro de nós. E existem saídas.

    Espero que as pessoas que leram esse texto que sofrem de alguma doença ou transtorno psíquico sintam-se estimuladas a não se rotularem e a não se deixarem intimidar por quem quer que seja ou pelo sofrimento. Acreditem: há saídas. Mas não há um remédio único para todos os doentes. Por isso defendo o enfoque da Medicina Integrativa, que usa uma abordagem multidisciplinar e que respeita a essência do paciente. A Medicina Alopata também pode dar bons resultados, cada organismo é único. Cada pessoa tem que contruir seu caminho de tratamento. Procurem se informar dos muitos caminhos e abordagens que existem, mas o fundamental é não desistir de si mesmo.

    Espero que os leitores que não apresentam nenhum distúrbio mental, mas que conhecem alguém, convivem com um familiar, amigo que tenha, façam uma reflexão sobre as palavras escritas. Façam o seguinte exercício: “Poderia ser eu a passar por tal situação. Como eu gostaria de ser tratado se passasse por isto?”. Fazer este exercício desenvolve em nós a empatia, a tolerância. Trate o outro como gostaria de ser tratado, pois o que você dá volta às suas mãos. O mundo já se encontra muito dividido. Vamos passar a somar. Vamos começar a vencer os nossos próprios preconceitos. Abraços.

                                         Sérgio Pinheiro Paffer.

 

                  ©Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução

                     sem autorização do autor. Permitido o compartilhamento

                     desde que citada a fonte.

                     Imagens: Reprodução.                         

Crédito das imagens:Reprodução.